Brasil poderia arrecadar mais de R$ 100 bilhões ao ano com taxação de dividendos nos moldes da OCDE, aponta estudo
Estudo aponta que taxar dividendos no Brasil com base na média da OCDE poderia render mais de R$ 100 bilhões por ano. Governo propõe modelo alternativo com foco em alta renda para ampliar isenção do IR.
Um estudo do economista Sérgio Gobetti, do Ipea, aponta que o Brasil poderia arrecadar mais de R$ 100 bilhões por ano caso adotasse um modelo de tributação sobre lucros e dividendos similar ao praticado pelos países da OCDE. Atualmente, o Brasil é uma das raras nações no mundo que não tributa a distribuição de lucros e dividendos para pessoas físicas.
Segundo dados apresentados por Gobetti e pela Tax Foundation, a alíquota média nos países desenvolvidos foi de 24,7% em 2024. Apenas Estônia e Letônia ainda mantêm isenção semelhante à brasileira.
“É um erro insistir em uma escolha feita há 30 anos. O mundo foi por outro caminho, e o Brasil precisa se alinhar às tendências internacionais para melhorar a eficiência econômica e a justiça social”, afirmou Gobetti em audiência no Congresso.
Distribuição de dividendos no Brasil superou R$ 1 trilhão em 2023
De acordo com levantamento do Ipea, a distribuição de lucros e dividendos no Brasil bateu a marca de R$ 1 trilhão em 2023 — valor que inclui juros sobre capital próprio. O volume foi dividido da seguinte forma:
- R$ 700,86 bilhões por empresas do lucro real e presumido
- R$ 261,57 bilhões por empresas do Simples Nacional
- R$ 36,4 bilhões em juros sobre capital próprio
Com base nesses números, uma alíquota de 24,7% poderia gerar até R$ 250 bilhões em arrecadação. Mesmo com uma redução estimada de 30% a 50% na distribuição, algo comum após a adoção da taxação, a arrecadação ainda ficaria acima de R$ 100 bilhões por ano.
“A sonegação e a disfarçada distribuição de lucros são desafios, mas o Fisco pode enfrentá-los com tecnologia”, explicou Gobetti.
Governo propõe modelo alternativo focado na alta renda
Apesar do potencial de arrecadação, o governo Lula não propôs diretamente a taxação de dividendos em sua proposta de reforma do Imposto de Renda. Em vez disso, enviou ao Congresso uma proposta para:
- Isentar contribuintes que ganham até R$ 5 mil por mês, a partir de 2026
- Cobrar um imposto mínimo de 10% sobre rendas acima de R$ 1,2 milhão por ano (cerca de R$ 100 mil/mês), onde lucros e dividendos estão incluídos
- Garantir que a carga tributária não ultrapasse 34% para empresas e 45% para instituições financeiras
A medida deve beneficiar até 10 milhões de brasileiros, sem aumentar a arrecadação federal. O relator da proposta será o deputado Arthur Lira (PP-AL).
Desigualdade e regressividade no sistema tributário
Segundo o estudo do Ipea, 47% dos R$ 1 trilhão distribuídos em dividendos foram apropriados por cerca de 160 mil pessoas — grupo que representa os 0,1% mais ricos do país, responsáveis por 12,5% da renda disponível das famílias brasileiras em 2023.
“Revogar a isenção sobre dividendos é essencial para corrigir distorções e modernizar a legislação do IR”, defende Gobetti.
Hoje, a maior parte da arrecadação no Brasil vem do consumo, o que torna o sistema regressivo — ou seja, quem ganha menos paga proporcionalmente mais impostos. Tributar os dividendos, dizem economistas, permitiria reduzir impostos sobre o consumo e aumentar a progressividade tributária.
Impostos sobre empresas: Brasil entre os mais altos do mundo
Enquanto lucros distribuídos a pessoas físicas são isentos, a carga tributária sobre empresas no Brasil é uma das mais altas do mundo. A tributação corporativa no país pode chegar a 34%, incluindo:
- 15% de IRPJ
- 10% de adicional para lucros acima de R$ 20 mil por mês
- CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido)
Na OCDE, a média de imposto sobre empresas foi de 23,9% em 2024.
Um relatório do Banco Mundial alerta que essa carga elevada, aliada a problemas como baixa qualidade educacional e alta violência, afasta investimentos internacionais da América Latina. Países asiáticos, como o Vietnã, têm atraído mais empresas com cargas tributárias menores e maior estabilidade institucional.
“A média efetiva da tributação empresarial no Brasil gira em torno de 20%”, afirmou Marcos Pinto, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, citando os regimes de Simples Nacional, lucro presumido e lucro real.
Reforma mais ampla? Só no próximo governo, diz Fazenda
Em entrevista ao g1, Marcos Pinto afirmou que uma reforma completa do Imposto de Renda, incluindo a tributação direta de dividendos, só deve ser debatida no início de um próximo mandato presidencial, e não agora, no meio do governo.
Ele também negou que a proposta atual tenha motivação eleitoral, apesar de o aumento da isenção do IR beneficiar milhões de eleitores em um ano de eleições presidenciais.
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“Revisar o Simples Nacional e o lucro presumido será inevitável numa reforma mais ampla. Hoje, as alíquotas efetivas são baixas e concentram benefícios que precisam ser repensados”, concluiu o secretário.